os últimos dias de Santo Antônio


Localizada no
Km 50 da Rodovia Transamazônica, próxima ao principal canteiro de obras de Belo Monte, a comunidade de Santo Antônio vive seus últimos dias. Fundada há cerca de 40 anos por colonos que vieram atrás das promessas de terra feitas pelo governo federal para fomentar a ocupação da Amazônia, a vila Santo Antônio está perto de encontrar seu fim diante do mega empreendimento mais recente na região: a construção da terceira maior usina hidrelétrica do mundo. a Vila está localizada dentro da área desapropriada por uma Declaração de Utilidade Publica emitida pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em favor de Belo Monte.

No auge da ocupação, cerca de 60 famílias viviam no local, há três ou quatro anos atrás, antes da chegada dos “barrageiros” – nome atribuído às pessoas que se mudam para áreas onde serão construídas barragens, com o intuito de pleitear indenizações. Hoje, cerca de 10 famílias permanecem ali, segundo moradores – sem enxergar outra opção, a maioria aceitou receber indenizações que variaram entre 9 mil e 60 mil reais e deixaram o lugar onde criaram filhos e viram netos nascer.

Em nota, a Norte Energia, empresa responsável pelo empreendimento, afirmou que “o cadastramento das famílias de Santo Antônio, incluindo residentes, proprietários de lotes com construções não ocupadas e proprietários de lotes vazios, ocorreu entre janeiro e maio de 2011, quando foram contabilizadas 252 situações de ocupação”, ressaltando que “em meados de 2005, na elaboração do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), eram apenas 70 famílias. Com o início das obras, em 2011, pessoas provenientes de vários locais, principalmente da região de Novo Repartimento e de Tucuruí, se estabeleceram na Vila Santo Antonio, com o único objetivo de receber indenizações, construindo pequenas casas de madeira, sem efetivamente ocupá-las como residência”. A empresa declarou ainda que “embora tenha o direito de uso da Declaração de Utilidade Pública (DUP) para garantir a destinação de terras à construção de Belo Monte, tem conduzido todas as negociações de forma amigável” e que “todas as famílias residentes tiveram a opção pelo reassentamento, sendo que a maioria optou pela indenização em dinheiro, espontaneamente.”

A maioria das casas deixadas pelos moradores já foi demolida e placas declarando a propriedade da vila para a Norte Energia esplahadas pelo local, incluindo uma em frente ao cemitério comunicando sua interdição, desde o dia primeiro de Janeiro de 2012, data a partir da qual ficou “expressamente proibido todo e qualquer sepultamento no local”. “Os falecimentos que ocorrerem a partir desta data, deverão ser comunicados à Norte Energia”, lê-se ainda na placa.

A última castanheira do Santo Antônio.

Cláudia Alcoforado Lima da Silva, 56, mora há 27 anos no Santo Antônio. “No ano passado eles vieram medir tudo aqui e quem quisesse indenização, pegava indenização, quem quisesse ir pra vila que dizem que vão construir, que ia.. só que desse pessoal todo não tem 8 famílias que vão pra vila, o resto já pegou o dinheiro, foi indenizado e foi-se embora”, conta. Dona Cláudia já recebeu sua indenização, no valor de R$ 51 mil reais. Inteirou com mais dez mil dados por um dos filhos e comprou uma casa em Altamira, mas ainda não saiu do Santo Antônio porque não tem encontrou escola na cidade para matricular a neta Emilly, que cria como filha. Apesar de ter escolhido receber a indenização, não sente que o acordo foi justo: “Eles não pagaram os nossos direitos. Só pagaram nossa casa, nosso terreno. Mas nós fizemos uma vida aqui e eles não olharam isso.. Eles não se importaram com os nossos sentimentos”, diz, “eu acho que eles deviam ter dado a nossa indenização e também fazer a nova comunidade. Mas a gente tinha que escolher uma coisa ou outra e eles demoraram demais e aí o pessoal achou melhor pegar o dinhero. Mas se eles tivessem feito logo uma vila pra nós, há três anos atrás, todo mundo tinha escolhido ir pra lá [opção pelo reassentamento].”

Cláudia foi professora durante 26 anos e fundou a única escola da localidade, a escola Santa Helena, onde sua neta Emilly continua estudando, além de crianças de outras localidades próximas. Um dos alunos ilustres do colégio fundado por dona Cláudia foi seu outro neto, William, que hoje, aos 18 anos, joga futebol no time junior do Torino, na Itália. “Ele já nasceu com aquele dom de bola, e eu estou muito orgulhosa dele, um filho aqui do Santo Antônio está lá jogando futebol na Itália”, conta ela.

O também orgulhoso avô de Willianm, Élio Alves Silva, também foi craque no time de Santo Antônio. “Eu fiz minha carreira de centro avante aqui.. eu tinha muita sorte pra marcar gol, as vezes eu marcava gol que nem eu esperava que eu ia fazer. Eu corria muito e tinha um preparo bom”, conta “eu tinha um chute muito forte e apoiado, um dia até desmaiei um. E vi até goleiro virar de costas com medo de bola que chutei”.

Sêo Élio é o último pescador da vila e vende os peixes para os poucos moradores resistem no lugar. Como compensação, optou por receber uma carta de crédito no valor de 57 mil reais, “é uma mixaria, mas de qualquer maneira é tudo que tinha”, diz, “mas vou permanecer aqui, vou lutar pra defender minha terra. No começo, que eu me senti pressionado, me deu vontade demais de ir embora daqui, mas agora vou permanecer. Se eles quiserem derrubar minha casa, pode derrubar e tocar fogo, mas sair daqui eu não vou. Se precisar eu ato minha rede bem aqui no meio do campo e vou tentar convencer quem ainda está aqui a ficar também”, conclui, “que nem duzentos mil pagava o que estamos perdendo aqui”.

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