Areia

“Eu vivo desenssossegada, passa dias e dias e não consigo dormir”, confessa Maria Silva, 60 anos, falando baixinho… como se estivesse sendo vigiada.

No dia 16 de Janeiro, ela teve o filho Edivaldo assassinado. O mesmo dia em que a energia elétrica finalmente chegou à comunidade do Areia. Houve forró para comemorar o acontecimento, e já no fim da madrugada Edivaldo foi morto a golpes de peixeira em frente à própria casa.

Maria chora. Não há consolo certo para esta maranhense de 1,60m, que veio para o Pará há 25 anos, “atrás de alguma vida melhor pra criar os filhos”. Bem magra, é chamada por todos de “fininha”  – carrega uma expressão forte e ao mesmo tempo melancólica de quem teve as durezas da vida como companhia no dia a dia de longos anos.

Quando caminha ao encontro do marido, sêo Domingos, ela caminha os 3 km de distância até o lote deles em estado de alerta, olhando para todos os lados como se a qualquer momento pudesse ser surpreendida por alguém.

Cada barulho na mata é motivo de sobressalto.

O autor do crime, Santarém, está preso. Na região Oeste do Estado, aponta-se como mandante um homem conhecido como Netão, que “veio do Sul” há alguns anos e já comprou nove lotes de assentados.

Embora ilegal, a negociação de lotes da reforma agrária é comum na região. Os assentados são muitas vezes deixados à própria sorte, sem incentivo nem financiamento pra trabalhar na terra. Muitos deles são forçados a vender seu lote, sob ameaça. Netão também financiaria a retirada de madeira em um pedaço da Floresta Nacional (Flona) do Trairão e é um dos homens mais temidos por ali. Não são poucos os relatos que o vinculam a tiros, surras e intimidações. Em um certo episódio, arma em punho, teria bradado que “a polícia do Trairão se vende por 1 kg de carne”.

Capitão do Mato

The main street of Areias — a settlement created to host Amazonic people alongside the BR163 national road– near the Amazonic Forest reserve of Trairao, western state of Para, northern Brazil on December, 2011. AFP PHOTO / LUNAE PARRACHO

A estrada que liga o Trairão ao Projeto de Assentamento (PA) Areia foi aberta por madeireiros para escoar as toras via BR 163 e é riscada por diversas vicinais e ramificações ao longo do seu percurso. Em 2005, os colonos do assentamento ficaram ilhados por dois meses numa época de chuva incessante.

O sobrenome do Areia poderia ser Esquecimento. No assentamento, todas as roças são de subsistência. A luz veio só este ano e, desde que chegou, as contas de energia vêm com a cobrança da taxa de iluminação pública, embora não haja nenhum poste de luz na rua. O orelhão não funciona há mais de dois anos. A médica só aparece no posto de saúde uma vez por mês. Poucos se lembram da última vez que uma ambulância entrou lá.

Não há emprego para ninguém e as famílias vivem da aposentadoria dos mais velhos (quando têm), do Bolsa Família e da indústria ilegal da madeira, que chega a pagar 870 reais por mês para um trabalhador.

Domingos Soares, 58, marido de Maria, se acidentou na roça há 15 anos e desde então caminha com dificuldade, mas não consegue se aposentar. “Eles querem que eu espere completar 60 anos”, diz. “A terra aqui é boa, mas a roça é braçal, a gente não tem máquina, nem incentivo pra plantar e a estrada é ruim”. Dois dos seus filhos trabalhavam para Valdinei Ferreira Jango, madeireiro que teve uma serraria fechada e foi autuado em R$ 1,8 milhão pelo Ibama este mês, durante a operação Capitão do Mato 2 – um esforço de fiscalização realizado em conjunto pelo ICMBio, Ibama, Polícia Federal, Força Nacional de Segurança e Sipam para tentar conter o corte ilegal de madeira dentro de Unidades de Conservação federais. Depois que os agentes do governo apertaram o cerco contra Jango, que foi o candidato do PSDB à prefeitura do Trairão nas últimas eleições, “muita gente ficou sem trabalho aqui”, conta “sêo” Domingos.

llegal wood at a sawmill of Valdinei Ferreira Jango, near the Trairão, western state of Para, northern Brazil on December 4. AFP PHOTO / Lunae Parracho

Moisés Rodrigues Barbosa, 41, atual presidente da Associação de Moradores do Areia, acha que “esse assentamento foi criado por madeireiros”, mas diz não ter certeza: “Quando eu cheguei aqui, em 2001, já tinha o assentamento. O Incra é ausente”. Moisés conta que os madeireiros sempre dominaram a região e que muitos colonos acabam trabalhando para eles, por falta de opção. “A gente termina se envolvendo, porque o inimigo é mais forte do que a gente”, confessa. “Até uns quatro anos atrás tinha uma cancela na estrada, com um segurança dos madeireiros pra impedir qualquer colono de sair com madeira. Aqui não tem nem um posto policial. A gente fica bem esquecido. O Incra fez essas casas onde a gente mora aqui na vila, mas entregaram pra gente sem reboco, piso, banheiro, porta e janela. A gente queria reforma agrária de verdade, essa só do papel não ajuda em nada”.

“Barreira para o desmatamento”

O lugar foi parar na mídia em 22 de Outubro, quando João Chupel Primo, 55, foi assassinado com um tiro na cabeça no município vizinho de Itaituba, horas depois de ter repassado ao Ministério Público Federal em Altamira informações sobre a extração ilegal de madeira e a grilagem de terras dentro de Unidades de Conservação Federais no entorno da BR 163. A Comissão Pastoral da Terra afirma que Chupel era uma liderança comunitária da região, embora os colonos do Areia não o reconheçam como tal. Só sabem dizer que João da Gaita, como era conhecido, tinha ligações com o grupo “Sorriso”, que estava em conflito com o grupo de Agustinho pelo domínio de territórios dentro das Unidades de Conservação (UC) Reserva Extrativista (Resex) Riosinho do Anfrísio e da Floresta Nacional (Flona) do Trairão.

Em sua denúncia, Chupel falava em 3 mil m³ retirados por dia da floresta. Alessandro Marçal, analista ambiental do ICMBio responsável pela Flona do Trairão, explica que “a derrubada e retirada de madeira na região acontece no período de seca, que vai de junho a novembro, com algumas variações, mas não é algo contínuo, não ocorre necessariamente todo dia, por conta de dificuldades logísticas”. O chefe de unidade estima que pelo menos 60 mil m³ têm sido extraídos por ano da região – “a maioria é Ipê, mas também cedro, jatobá e massaranduba”, diz. “Depois do primeiro beneficiamento, essa quantidade de madeira serrada chega a valer cerca de R$ 45 milhões a preço final”.

Aerial view of the Amazonic forest reserve of Trairao, western Para state, northern Brazil on December, 2011. AFP PHOTO / LUNAE PARRACHO

As UCs funcionam como uma barreira para o desmatamento. Mas o desafio é grande para dimensões territoriais extensas. A Flona do Trairão, que conta com apenas dois analistas ambientais em sua equipe, soma 257 mil hectares. Na Resex Riosinho do Anfrísio são também 2 servidores do ICMBio para 736 mil hectares.

Até o momento, Carlos Augusto ‘Agustinho’ e o vice-prefeito de Rurópolis Vilson Gonçalves (PT) foram presos sob suspeita de terem sido os mandantes da morte de Chupel. Vilson Gonçalves é outro dos madeireiros conhecidos na região e em Setembro foi autuado durante operação realizada pelo ICMBio e IBAMA.

Dona Maria, que chegou ao Areia em 1998, conta como tudo começou: “O Incra só fez jogar nós pra cá que nem os bicho bruto”, e explica que o assentamento foi registrado com a ajuda de um madeireiro chamado Dito. “Ele era muito bom pra nós, trabalhava pro Osmar Ferreira (conhecido como um o “rei do mogno da Amazônia”) e pagou todos os custos de cartório e de viagem pra Itaituba pra gente fazer a ata da associação e depois a gente doou um terreno pra ele montar a serraria. Se não fosse ele, nós não sobreviveria aqui, ele ajudava a comunidade, dava dinheiro, comida, abria estrada”.

Nesta época, Agustinho era o ‘capitão do mato’ de Dito, uma espécie de gerente que controlava o território e impedia que outros explorassem madeira. Os moradores do assentamento, que têm medo de se identificar, contam que quando Dito abandonou a região, em 2005, Agustinho passou a controlar tudo, dizendo-se dono da área onde hoje fica a Flona do Trairão. “Qualquer um que quiser tirar madeira daqui tem que pedir autorização e pagar a ele 50% e ele tem aqui uns 20 pistoleiros, ninguém discute, ninguém pode falar mal, a lei quem faz aqui é ele”, diz um comunitário.

Os grupos que financiam o corte ilegal de madeira na região têm relações fluídas e conflituosas, cada um querendo uma parte maior do bolo para si. Quem sobra no meio e sempre sai perdendo são as populações locais, para quem – vivendo a ausência do Estado – qualquer ajuda é muito.

A child on a bicycle passes by a member of the Public Security National Force –a national police elite unit– standing guard at a street of the city of Trairao, along the BR163 national road, state of Para, Northern Brazil, on December 4, 2011. The region faces violent conflicts over land and illegal logging. AFP PHOTO / Lunae Parracho

Dias antes de sua morte, João Chupel e outro denunciante expuseram ao MPF outro golpe sofrido pelos assentados. Luis Carlos Tremonti (da Lamex Export) e Marcos Sato (da Amazônia Florestal) teriam se reunido com a associação de moradores do PA Areia com uma proposta de “parceria em um plano de manejo madeireiro no Projeto de Assentamento”, em troca da promessa de uma máquina de esteira e um trator de pneu à associação e de uma comissão em dinheiro sobre a produção de madeira.

De acordo com as denúncias, um Plano de Manejo Comunitário foi autorizado para 9 lotes do PA, gerando um crédito para a extração de 11.546m³ de madeira, mas Sato e Tremonti “diziam aos associados que o plano de manejo não havia sido aprovado e em 2008 os associados descobriram que, dos 11.546 m³ de madeira com extração autorizada na área do projeto, 11.538 m³ já haviam sido formalmente retirados”.

Os denunciantes afirmam que a área, entretanto, não teve a madeira explorada e que “mais de 11.500 m³ de madeira foram cortados de outro lugar e usaram os créditos gerados pelo plano de manejo comunitário do PA Areia para esquentar essa madeira”. Com a aprovação do plano de manejo, foi reativada a serraria instalada na vila do assentamento, com o nome SS Trigueiro. Ainda segundo as denúncias, “serrarias do Trairão e de Itaituba beneficiam as toras sem licença e cuidam da exportação do material devidamente ‘esquentado’ por uma guia falsificada”.

Moisés não era o presidente da Associação nesta época, mas mostra uma cópia do contrato assinado pela comunidade. “A única coisa que eu sei é que nós nunca recebemos nada desse contrato”, conta.

“Atraso de vida”

Enquanto em Brasília o Senado aprovava a reforma do código florestal que afrouxa a proteção das florestas, os agentes do ICMBio que participam na operação Capitão do Mato seguem caminhando longas distâncias pelos ramais onde o carro não passa, dormem no meio da mata comendo ração para combate do exército e mapeiam o labirinto de estradas abertas pelos madeireiros, que derrubam outras árvores com o objetivo de dificultar a passagem da fiscalização.

Members of the Chico Mendes Environmental Institute on 4x4s drive along muddy trails of the Trairao Amazonic forest reserve, west of the Para state, northern Brazil on December, 2011. AFP PHOTO / LUNAE PARRACHO

O coordenador da operação, Guilherme Betiollo, estima que os madeireiros tenham criado cerca de 400 km de estradas dentro da Resex Riozinho do Anfrísio e da Flona do Trairão, entre ramais principais e secundários, interligados à BR 163, por onde a madeira é transportada com Documentos de Origem Florestal ‘esquentados’. “As estradas são como feridas abertas na floresta”, explica o agente Marçal, “por elas entra todo o tipo de vírus”. Ele se refere a outras formas de exploração ilegal e ao posterior desmatamento para formação de pastagem para gado ou plantação de soja.

A operação, realizada entre os dias 18 de novembro e 8 de dezembro, terminou com a apreensão de 3000m³ de madeira ilegal, em tora e serrada, de alto valor comercial. Durante a fiscalização, também foram apreendidos 6 tratores. Cerca de 90% da madeira apreendida foi Ipê, que é madeira da vez na Amazônia, em razão da dificuldade cada vez maior de se encontrar o mogno, que antes era a espécie mais cobiçada e de maior valor no mercado negro. Chamados pelos madeireiros de o novo ‘ouro da Amazônia’, um metro cúbico de Ipê serrado é vendido ao preço final de R$ 2.500.

Em frente à base montada pela operação, sêo Zé “do couro preto” toca um boteco com a esposa. Ele não diz o nome completo, mas critica: “Eles estão tirando leite da boca das criancinhas. Essa comunidade depende dos madeireiros”, diz. “E esses territórios federais (Unidades de Conservação) são um atraso de vida, se não fosse isso, a gente já tinha uma estrada pra Rurópolis aí por dentro e toda essa terra já tinha virado pecuária”.

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História publicada no Terra Magazine: No Oeste do Pará, assentados de Areia resistem a pressões de madeireiros e grileiros

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