7 meses depois

Natalice Fernandes dos Santos, mother of Erica, a 15 year old girl who was killed by military police during the operation that became known as the massacre of Pero Vaz, in Salvador, Bahia. Erica’s body remained missing for five days and was found today in a roadside thicket of Cascalheira in a neighboring municipality of Salvador. 2010. Photo: Lunaé Parracho

Quinta-feira Natalice tem dificuldade para dormir na Liberdade, o bairro mais negro da cidade mais negra fora da África. Uma ladeira quase vertical da qual não se vê o fim envolto pelo escuro da noite. Hoje, Natalice está de pé comandando o boteco que montou na varanda à frente de sua nova casa. Quatro clientes ocupando duas mesas bebem cerveja ouvindo pagode quando chegamos. Ela nos convida a entrar, diminui o volume do som e pede para os clientes falarem mais baixo. Eles encerram a última rodada e se vão. Numa noite de quinta como essa, à sete meses atrás, sua filha Érica, de 15 anos, foi assassinada por policiais em uma trágica ação militar que depois ficaria conhecida como “a chacina do Pero Vaz”.

A casa pequena têm os cômodos separados por cortinas coloridas. Natalice é jovem e sempre teve uma vida agitada. Conhecida na região como “negona”, ela fazia a correria armando tabuleiros em festas de largo e finais de semana. Hoje, não sai muito. Vive com medo de sofrer algum tipo de represália dos assassinos de sua filha, já que ela foi a única que teve coragem de se expor na mídia em busca de justiça. Toda noite de quinta-feira, ela rola na cama inquieta.

Doze PMs foram indiciados no inquérito policial e estão sendo processados. Na audiência em que os parentes das vítimas foram ouvidos o microfone do fórum funcionou perfeitamente. Já na audiência em que os policiais estavam sendo ouvidos, foram desligados. Diversos militares fardados, de diferentes companhias da PM encheram o fórum. Na sala não se podia ouvir o que os acusados e as testemunhas de defesa falavam.

Em todo esse tempo Natalice não recebeu nenhum tipo de ajuda do Estado, que não enviou representantes nem no dia do enterro de Érica. “Eu me apeguei foi na imprensa”, fala – como quem declara devoção a um santo. Natalice abre uma pasta de plástico azul transparente onde guarda os recortes de jornais com as notícias da chacina. “Essa foto”, diz, mostrando uma das páginas com uma foto que fiz do interior da casa onde as mortes ocorreram, “me faz imaginar minha filha aqui, acuada”. E fala do silêncio depois dos tiros naquela noite de Março. Conta do drama em busca de sua filha, cujo corpo só foi encontrado cinco dias depois, jogado em um matagal próximo à uma estrada deserta em outro município – os dreads cortados, a tatuagem nas costas raspada à faca, buracos de bala nas pernas e nas costas e a cabeça separada do corpo. Ela insiste para ver as fotos da cena. E pede cópias. Quer usá-las no processo que vai abrir contra o Estado.

“O Estado”, diz, “matou minha filha”.
“Eu sinto ódio, muito ódio”.

Advertisements