Cidade Baixa

A ladeira da Conceição da Praia, na cidade baixa, liga a igreja de mesmo nome – de onde sai o cortejo do Bonfim, ao lado do elevador lacerda – até a praça Castro Alves – onde acontece a virada dos trios elétricos no carnaval. Menos de um quilômetro o trecho todo, em paralelo à Ladeira da Montanha – uma encosta coberta de casarões velhos e decadentes, porém tombados. Uma área de prostituição histórica que, segundo contam, teve seus tempos áureos com clientela endinheirada há algumas décadas. Atualmente, mais uma quebrada esquecida pelo Estado. Lugar de sacizeiros e bregas baratos – programa sai até a dois reais, segundo informações de quem circula pela área. “Eu perdi meu cabresto aqui”, diz um motorista que acabava de chegar, “há trinta anos atrás, tinha muita mulher boa.. a gente não podia com a namorada naquele tempo, então vinha meter aqui, na chapa, que naquele tempo não tinha aids.. era no máximo gonorréia, um pinga-pus, aí era só tomar uma garrafada que ficava bom. E voltava.”

Na madrugada de sexta para sábado, chovia muito em Salvador quando uma parte do telhado despancou e as paredes velhas minavam água quando as meninas todas do casarão onde funcionava a boate Hi Fi foram dormir em um hotel no Comércio. Artemísia, 33, a loira, decidiu ficar mais um pouco com três clientes, sem acreditar que aqueles quatro andares podiam mesmo vir abaixo.

Dezoito horas depois, assumi o lugar de Margarida – que havia assumido o lugar de Batista – em cima de um muro compartilhado por fotógrafos e cinegrafistas em frente ao rombo na parede lateral por onde os bombeiros trabalhavam para retirar Eliélson, 40, vivo, debaixo de 3 metros de escombros. A ladeira da Conceição, tomada de policiais, bombeiros, médicos da SAMU, agentes da defesa civil, operários da Sucom e eletricistas da Coelba, havia se tornado uma espécie de palco. Todos os olhos voltados hoje pra onde ninguém olhava até ontem. Eventuais clientes das meninas, desavisados, davam meia volta no topo da ladeira ao vislumbrarem as luzes vermelhas e azuis dos giroflex. Alguns dos que trabalhavam desde cedo ali – realizando ou cobrindo o resgate – chegaram a comentar sobre a beleza de uma morena seminua, cabelos bem lisos de chapinha, que desfilava atravessando a rua de um bar para uma casa e fazendo isso de novo e algumas outras vezes. As garotas (a maioria já não tão garotas) assistiam a tudo meio de longe, lamentando a noite de trabalho comprometida. Um pouco desconfiadas, mas cara de quem já não se assusta com nada, vestidas como toda noite, obervavam o repórter de uma emissora de tv se preparando para entrar ao vivo, enquanto a gente se abaixava pra não aparecer no quadro do vídeo.

O relógio já ia querendo dar meia noite quando Lucas, médico da SAMU veio dar a notícia junto ao major Sturaro, do corpo de bombeiros: iam ter que amputar a mão e o antebraço esquerdo de Elielson, preso sob uma viga de madeira que escorava os escombros. Se mexessem na tora podia morrer o homem e os cinco bombeiros lá embaixo. “A mão pela vida”, sentenciou o major.

O médico teria de realizar a cirurgia de cabeça para baixo, pendurado por cordas.
Eliélson topava qualquer coisa pra sair de lá. E saiu. Quase 24 horas após o desabamento.

Carregado na maca, amputado de um braço, sujo e exausto, mas consciente.
Os microfones das tvs não captaram o áudio, porque estavam lá embaixo nessa hora, mas ele ainda teve forças pra dizer alto enquanto olhava para a câmera de foto: “eu quero tomar uma cerveja”.

(Artemísia não sobreviveu)
(Elielson, nesse momento, está em coma induzido no Hospital Geral e corre risco de morte)

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