linha de fronteira

Moradores caminham entre os destroços, lama e lixo espalhados pelas ruas de Barreiros (PE), 20 dias após as fortes chuvas que deixaram o município em estado de calamidade pública. 07/07/2010 Foto: Lunaé Parracho / Ag. A Tarde


Barreiros, Pernambuco.

As pessoas se equilibram pra não cair enquanto caminham sobre o lixo e a lama que cobrem a cidade. Um homem leva um carro de mão cheio de bonecas sujas sobrepostas, de vários tamanhos, pernas e cabeças do avesso. São da filha Heloísa, de 3 anos, que lhe pediu para consertá-las. Um menino vestindo uma camiseta vermelha escala uma pilha de carteiras quebradas que são o que sobrou da escola. No açougue municipal, trabalhadores não escondem as garrafas da cachaça Pitú que são o único jeito de aguentar o cheiro da carne podre misturada com mais de meio metro de barro que é seu trabalho tirar dali.  “Minha vida virou poeira”, diz o açougeiro Moisés Zeferino.

A Defesa Civil classifica “estado de calamidade pública”.

No bairro afastado da Prainha de Cima – 20 dias depois da enchente – as máquinas retroescavedeiras que removem os destroços ainda não chegaram. Uma pequena bíblia pisoteada e suja de terra deita no chão entre os escombros, estranhamente aberta no capítulo gênesis. Pedaços de pau e restos de casas, fotografias apagadas, livros soterrados e móveis retorcidos na última rua do bairro mais distante de Barreiros.

A gente caminha com cuidado e fala baixo, tentando ainda ver e escutar, depois de 10 dias percorrendo o norte de Alagoas e o sul de Pernambuco, que contam mais de 100 mil desabrigados.

As mãos e os olhos de Sêo Arlindo Santana dão testemunho das décadas de lavra no campo. Sertanejo forte, ele remove aos poucos – e há dias – com uma pá a montanha de lama que ainda lhe impede de entrar na casa onde morou durante os últimos 26 anos com a mulher Lindalva. A casa não caiu, mas foi gravemente atingida pela fúria da água que inundou a rua mais de 6 metros de altura. Durante a noite, os dois dividem com dezenas de outras pessoas, um dos abrigos improvisados na cidade.

De longe, a impressão é sempre traiçoeira.
A pressa desfoca e subexpõe. As palavras confundem, evitam. E em um certo momento, a gente não fala mais, respeitando o silêncio que é lamento.

Ali, naquele lapso do tempo diante da câmera, sêo Arlindo explode um choro incontido. um corte na alma, ferida aberta de dias.
Ele não chorou nem no dia da morte de sua mãe.

Poderia ser só mais uma casa, modesta, mas não é.
É a sua casa.
choramos juntos enquanto dispara o obturador. tenho vontade de abraçá-lo como se abraça um irmão.
e seguimos chorando como quem reza e pede a Deus…

“E agora? Quer dizer, o que é que eu sou? Nasci numa pequena cidade da catinga, do sertão.. sob um teto sossegado. meu sonho era um pequenino sonho meu. na ciência dos cuidados fui treinado” – rasga no rádio Waly Salomão, poeta brasileiro que propunha a inclusão de um livro na cesta básica – “agora, entre o meu ser e o ser alheio, a linha de fronteira se rompeu.

A linha de fronteira se rompeu.”


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(alguns minutos depois, um problema na cortina fez a câmera parar de funcionar)

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