“ó eu”

O menino Júlio costuma brincar em volta de sua casa, debaixo de um pé de Imbú, árvore comum nos chapadões semi-áridos do Nordeste. No horizonte, se distingue a imensa cava da única mina de urânio em operação no Brasil.

Julio é um dos cerca de 3 mil moradores da zona rural que habitam o entorno da mina, em um raio de 20km. A maioria vive cercada por incertezas quanto aos riscos da exploração do urânio. Desconfiam da água que consomem e dos alimentos que colhem nas roças, e lidam com informações desencontradas sobre vazamentos nas piscinas que abrigam a água contaminada pelo processamento do minério e do aumento do número de casos de câncer na região.

A Unidade de Concentrado de Urânio (URA), da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que extrai e beneficia urânio nas proximidades dos municípios de Caetité (46 mil habitantes) e Lagoa Real (13 mil habitantes) no sudoeste do estado da Bahia, foi ativada em março de 2000. Hoje, opera sem o cumprimento de duas condicionantes estabelecidas pelo IBAMA em 1997, a 2.12 (exigência de monitoramento da saúde dos trabalhadores e da população do entorno da URA) e 2.8 (exames hidrogeológicos). A exploração da mina ainda não tem Autorização para Operação Permanente (AOP) e sua Autorização de Operação Inicial (AOI), concedida pela CNEN, foi renovada seis vezes, contrariando regras da própria comissão que permitem apenas duas renovações da autorização provisória. Ainda assim, no ano passado a INB anunciou seu projeto de duplicação da produção de urânio da unidade de Caetité (de aproximadamente 350 toneladas para 800 toneladas por ano), incluindo o início da exploração subterrânea da mina. Segundo a empresa, a iniciativa visa atender em 100% a atual demanda nacional de Angra 1 e 2, além de abastecer Angra 3, cuja inauguração está prevista para 2012. Com investimentos da ordem de R$30 milhões, a ampliação deverá ser implementada em dois ou três anos.

Do urânio extraído no polígono das secas é obtido um concentrado chamado “yellow cake” que é transportado por cerca de 750 km de caetité a salvador, de onde é embarcado em navio rumo ao Canadá e depois Holanda para enriquecimento. Finalmente o subproduto volta para Resende, sul do estado do Rio de Janeiro, onde são produzidos elementos combustíveis para utilização nas recargas das usinas nucleares de Angra. Com o fornecimento desses elementos à Eletronuclear, a empresa obteve um faturamento de R$ 182,2 milhões em 2007.

Júlio é vizinho da mina. Quando nasceu, ela já estava inserida na paisagem da região. No povoado de Riacho da Vaca mora com a avó e os irmãos numa pequena casa sem energia elétrica. Alheio de que ali começa o ciclo da energia nuclear, ele se assusta ao ouvir o som do obturador a cada disparo da câmera fotográfica. “É tiro, mãe”, ele diz à sua avó, e se espanta ao ver a si mesmo na foto através do display digital: “ó eu!”, diz, “ó o pé de imbú”. Júlio reconhece a árvore de vida longa da qual praticamente tudo se aproveita: suas raízes armazenam água, tem um fruto agridoce de polpa quase líquida, que também serve para suco e compotas, as folhas alimentam animais ou compõem saladas quando refogadas e a casca serve de remédio. É a “árvore sagrada do Sertão”, nas palavras de Euclides da Cunha.

Foto:  Lunaé Parracho / Greenpeace

Vídeo Denúncia do Greenpeace

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